O autoritário e a Big Tech, um caso de amor carnal

No que respeita ao tema da regulação da Internet, há um género de pessoas que sempre se contorceram e roeram as unhas pelo facto de a Internet ser um meio de comunicação descentralizado que não é facilmente controlado pelo Estado. Chamemos-lhes os autoritários.

A Internet era o pior pesadelo do autoritário. Permitia - imagine-se! - que pessoas pudessem comunicar umas com as outras, sem que disso fosse mantido um devido registo e houvesse relatório às autoridades do bem.

O autoritário perdia o sono com Lessig. Como se poderia admitir que o código informático desempenhasse papel análogo ao da lei?!

Pior, na Internet qualquer pessoa podia vir debitar opiniões e criar conteúdo. Oh, o crime! Oh, as massas! Oh, a crítica injusta! Quem o acode?
Ai, que saudades do tempo em que ter audiência era privilégio sob reserva de admissão.

Mas depois o autoritário descobriu a Big Tech.
Foi paixão platónica, a resposta a todas as suas orações. Uma forma de obter, por fim, o controlo que tão ardentemente desejava.

Onde a Internet era descentralizada e dificultava a intervenção, a Big Tech centraliza e controla. Onde existia privacidade e anonimato, passou a existir espionagem e vigilância massiva. Onde existiam dificuldades de acesso a conteúdo pelas autoridades, há agora backdoors autorizadas. E se a Big Tech não consegue controlar a que sites as pessoas acedem, ele há-de criar um botão on-off que limita aquilo a que se pode aceder.

Com a Big Tech, o autoritário ganhou novo ânimo e acha que já só precisa de se sentar a debitar em papel de lei, que todos os problemas ficam resolvidos. O autoritário tem como missão limpar a Internet, o “faroeste no mundo digital”, e para isso conta com uma sensibilidade e graciosidade de um elefante em loja de fina porcelana.

O autoritário delira com obrigações de remoção de conteúdos em 1h, que apenas a Big Tech pode oferecer, funcionam mal e porcamente e até apagam provas de crimes de guerra. Mas que importa, a net tem é de estar limpa. O autoritário delira com a utilização de filtros prévios que pré-aprovam conteúdos mas não são filtros de censura apesar de poderem censurar mas enfim é complicado e eu vivi em ditadura, que a Google até já disponibiliza.

O autoritário não diz mal da Big Tech. Ou aliás, para o autoritário, o problema da Big Tech é não ser europeia, por isso o caminho a seguir é arranjar a nossa própria Big Tech. Mas o autoritário até se diz contra a Big Tech porque a quer taxar. Quão progressista! Pena confundir o progresso tecnológico da Big Tech com progresso social.

Para o autoritário a Big Tech é A solução a copiar. O problema da imprensa? É não saber ainda como espiar os seus leitores de forma a também facturar com os seus dados. Mas até nisso a Big Tech nos salva, é só pôr a Big Tech a financiar os Murdochs desta vida e o jornalismo está salvo.

E TODA a Internet devia ser Big Tech! E que se lixem os pequenos ou os danos colaterais para a liberdade de expressão dos cidadãos. E que todos os milhões do PRR e da Transição Digital vão direitinhos para o bolso da Big Tech! E que o Estado seja a Big Tech e a Big Tech o Estado!

Tal como a Big Tech, o autoritário quer mais um acordo de transferência de dados entre UE e EUA. Porque a anulação do Safe Harbor e Privacy Shield pelo TJUE (Tribunal de Justiça da União Europeia) ainda não é suficiente, o que faz falta mesmo é um terceiro acordo - à terceira é de vez! Maldito TJUE que manda abaixo acordos que permitem o funcionamento e certificam a segurança dos nossos dados em empresas como a Cambridge Analytica.

Autoritários há muitos, mas uns disfarçam melhor que outros. Ou talvez não seja doença de nascença e apenas se manifeste em lugar de poder.

O autoritário passa a vida a lançar-se ao pescoço da Comissão Nacional de Protecção de Dados e de todos os que defendam a privacidade. O que não se lhe ouve é uma palavra ou preocupação sobre as práticas de vigilância massiva dos EUA. Seja nos Censos, nas cookies e analytics da Administração Pública, nos dados de manifestantes enviados para Estados autoritários ou na Stayaway (CLARO que o autoritário é grande defensor da Stayaway!), a culpa é sempre da CNPD.

O autoritário lava mais branco a Stayaway, tem a lata de imputar o falhanço àqueles que avisaram que ia falhar, e ainda se atreve a imputar responsabilidade moral por mortes da COVID-19!

Só da mente iluminada do iluminado poderia vir a ideia luminosa de alargar a competência da ERC à Internet. Uma competência que nem a própria ERC quer. Como se a Comunicação Social e a Internet fossem coisas sequer parecidas. Bem, ao menos em vez de se criar mais uma entidade para falhar em regular a Internet, usamos aquela que já falha em regular a Comunicação Social e assim só se estraga uma casa.

O autoritário acha que as novas gerações são desbocadas e com espírito de matilha. Mas quando as mesmas críticas vêm de um Prof. Catedrático que lhe dá um chumbo em praça pública mantendo uma simpatia e trato próprios do decoro institucional, o autoritário até agradece.

A palavra que o autoritário mais escreve é “ciberanarquistas” - muito para espanto de todos os 5 ciberanarquistas cá do burgo. É que para o autoritário, ciberanarquistas são todos os que com ele não concordam. Tal como para o Chega e a alt-right tudo à esquerda do CDS (inclusive) são comunas e xuxalistas, para o autoritário, quem não é cibersecuritário é ciberanarquista.

Ai, as criancinhas! Ai, as violações em streaming! Ai, que entre a civilização e a barbárie, resta já só o autoritário, a nossa última esperança!

Oh espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais ciber do que eu?

O autoritário pode ser missionário, mas nunca foi ciber! Será quanto muito o Pplware do ciber.

Qualquer que seja o ciber-significado do ciber e de todas as ciber-coisas.

O autoritário acha que só ele sabe, só ele lê, e manda sempre os outros ler.
Onde qualquer pessoa tem dúvidas, o autoritário tem certezas!
O autoritário é muito mais que um deslumbrado tecnológico, o autoritário deslumbra-se a si próprio!
O autoritário até pode ler muito, mas não pesca nada disto.

O autoritário não nos representa, por muito que ele ache que sim.
E um país com um autoritário ao leme do digital será tão atrasado no digital quanto já é no analógico. Teremos uma transição digital equiparável à Stayaway.
E uma ciber-comunidade que consente deixar-se representar por um autoritário é uma cambada de indigentes e vendidos. PIM!