Isto é para Todos: a história inacabada da WWW

Acabei recentemente de ler o livro "Isto é para Todos: A história inacabada da World Wide Web", do inventor da mesma, Tim-Berners Lee. Sim, aquela invenção nascida na Europa, numa instituição pública, que mudou o mundo.

Apesar de ter a palavra "história" no subtítulo e cobrir a história da WWW, o livro é igualmente sobre o seu presente e futuro.

O seu maior mérito é conseguir interligar de forma coerente muitos temas que tantas vezes são abordados de forma isolada, o que não facilita conseguir perceber o lugar de cada um no conjunto. Isso permite ao leitor construir um mapa mental mais completo e interligado, entendendo como vários assuntos se encaixam e como algumas questões, que poderiam parecer menores ou temas de nicho, são na verdade absolutamente cruciais. E.g., dados abertos não é moda, software livre não é mania. Este tipo de capacidade de compreensão global faz muita falta.

O livro segue vagamente um formato de biografia de Berners-Lee e da Web, com muitas paragens para abordar questões relacionadas com a Web.

A parte inicial é focada na origem da Web, e é útil para entender aspectos técnicos da Internet e da Web, e as razões para algumas das opções de Berners-Lee no desenho do sistema. E também as partes em que o próprio acha que falhou (DNS — é sempre o DNS). A Web é tanta coisa, que por vezes perde-se a noção que a Web, de forma simplificada, mais não é que uma janela de um sistema de ficheiros que, em vez de nos dar acesso a ficheiros do computador local, dá acesso ficheiros de outros computadores ligados em rede. Essa abordagem técnica, mas acessível, oferece toda uma nova perspectiva a quem ainda não a conhece.

Depois conta a história da Web até aos dias de hoje, e pelo caminho aborda muitos temas relevantes. O sinuoso percurso da W3C para tentar manter o protocolo aberto e o controlo multistakeholder (mais um exemplo do modelo de ditador benevolente — entretanto cessado), perante os interesses comerciais sempre presentes. As guerras dos browsers, que muito mais que as questões de concorrência, foram uma luta pelo poder de ditar as regras do protocolo da Web. A questão da encriptação. Censura. Hacktivismo (Aaron Swartz não foi esquecido). Cookies. A importância crucial do (como ele prefere chamar) código aberto (sabiam que a Web tem licença livre e copyleft?. Vide também "Why I gave the world wide web away for free". E sabiam que, antes da Web, houve protocolos alternativos, como o Gopher, que era bastante mais popular mas desapareceu quando a Universidade do Minnesota tentou capitalizar o seu sucesso com taxas para utilização para fins comerciais?). O papel dos dados abertos, que não é mera questão de transparência mas de tornar a web semântica, termo que cunhou. A neutralidade da Internet. O estado actual de hiperconcentração de utilizadores em plataformas de extracção de dados pessoais cujo modelo de negócio é prender a atenção das pessoas horas a fio e viciá-las, dando cabo da saúde mental de jovens e menos jovens, em busca de lucro. A publicidade direccionada com base na vigilância e os seus efeitos colaterais danosos para a democracia. E como toda essa realidade de hoje é oposta aos valores originais da Web. A questão Inteligência Artificial, reafirmando a posição de que os dados abertos não são um erro nem um bug, mas uma feature. Enfim.
E soluções. Dados abertos, código aberto, Fediverso, RSS, comunidade. E a sua nova proposta para dar aos utilizadores total controlo sobre os seus dados pessoais.

Não digo que a palavra de Tim Berners-Lee seja a Palavra do Senhor. Discordo de uma ou outra coisa. Aliás, conheci-o precisamente num protesto, em Lisboa, em Setembro de 2016, à porta de uma reunião da W3C, contra a implementação de DRM no HTML (props para quem perceber esta frase[*]; em duplicado para quem souber por que está tecnicamente errada / excessivamente simplificada). Na altura, o Marcos, a Paula, o Rui, entre outros, (com quem muito aprendi) bem que o tentaram convencer que era má ideia, mas o gajo é teimoso e levou a dele avante, e agora o MeoGo não funciona em Linux e a RTP Play tem dias — mas adiante. A postura impecável ninguém a tira. Perante os protestos, saiu da reunião e veio discutir o tema connosco.

Mas é tão refrescante ler alguém que sabe realmente do que fala. E que consegue ter uma atitude optimista para o futuro da Web, embora não dê como garantido que o caminho vá ser o mais positivo, dizendo que pode igualmente correr mal, mas que depende de cada um e de todos nós no conjunto, mas que ainda vamos a tempo.

Nota: Um pormenor do livro: acho que foi a primeira vez que vi uma declaração de direitos de autor que respeita as excepções aos direitos de autor, em vez da habitual mentira aos leitores de que nenhum tipo de cópia pode ser feita sem autorização prévia. Para dar uma no cravo e outra na ferradura: tem logo de seguida uma declaração que não permite a utilização da obra para fins de treino. O art. 3 DMUD quer falar contigo, Tim.


[*] Uma recordação impagável: os polícias, em maior número que os cerca de 10 protestantes nerds de ar inofensivo, olhavam entediados sem perceber o que raio era aquela reunião de nerds estrangeiros importantes chamada W3C, por que raio estávamos nós a protestar à porta, e o que faziam afinal eles (os polícias) ali. Após algum tempo, um deles lá perdeu a vergonha (ou a aposta) e veio perguntar: "Olhem, desculpem lá qualquer coisinha, mas... será que me podiam explicar o que raio é isso do "DRM no HTML?!?!". Nunca pensei que fosse esta a pergunta que me deixasse com ar embasbacado e algo comprometido perante a polícia, com dificuldade em arranjar uma explicação simples e convincente. Felizmente, o Rui teve paciência para tratar de responder — não sei com que grau de sucesso.

(Créditos das fotos: talvez tenha sido eu, o Jaime, ou, nesta última, o Rui ou o Marcos. Ou outros. 10 anos depois, vá-se lá saber...)

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